Escritos avulsos

Escritos avulsos

Eu sou trezentos...
Eu sou trezentos, sou trezentos-e-cincoenta,
As sensações renascem de si mesmas sem repouso,
Ôh espelhos, ôh! Pirineus! ôh caiçaras!
Si um deus morrer, irei no Piauí buscar outro!
Abraço no meu leito as milhores palavras,
E os suspiros que dou são violinos alheios;
Eu piso a terra como quem descobre a furto
Nas esquinas, nos táxis, nas camarinhas seus próprios beijos!
Eu sou trezentos, sou trezentos-e-cincoenta,
Mas um dia afinal eu toparei comigo...
Tenhamos paciência, andorinhas curtas,
Só o esquecimento é que condensa,
E então minha alma servirá de abrigo.
1929 (incluído no livro “Remate dos males” de 1930)
Mário de Andrade (1893-1945)
Quadros de Edgar Degas (1834-1917)
À esquerda e acima: Trois danseuses en rose (1886)
À esquerda e abaixo: Le Foyer de la danse à l’Ópera, rue Le Peletier (1872)
No centro: La classe de danse (1874)
À direita: L’étoile ou Danseuse sur la scène (1876-1878)